Apitegromab e Mounjaro: novo remédio preserva massa muscular?
O apitegromab foi aprovado nos EUA para uma doença neuromuscular e está sendo estudado junto à tirzepatida. Entenda o que a pesquisa encontrou — e o que ainda não sabemos.

Fernando Villa Verde
Nutricionista • CRN-3 59345
Especializações:
- Nutrição Esportiva e Fisiologia do Exercício — USP
- Fitoterapia — Santa Casa de São Paulo
- Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness — PUC-Campinas e PUCPR

Em resumo
- A aprovação do apitegromab nos Estados Unidos é para atrofia muscular espinhal — não para emagrecimento nem para usuários de Mounjaro.
- Em um estudo de fase 2 com 102 adultos, apitegromab junto à tirzepatida reduziu a perda de massa magra em comparação ao placebo.
- Hoje, exercício de força, alimentação adequada e acompanhamento continuam sendo a base para proteger músculos durante o emagrecimento.
Uma manchete recente chamou atenção: os Estados Unidos aprovaram um medicamento contra a perda muscular que também está sendo testado em pessoas que usam Mounjaro.
A notícia é importante, principalmente porque coloca a preservação dos músculos no centro da conversa sobre emagrecimento. Mas ela reúne duas histórias diferentes: uma aprovação para uma doença rara e um estudo ainda inicial relacionado ao tratamento da obesidade.
O que foi aprovado de fato?
O apitegromab, comercializado nos Estados Unidos como ISEMBYLD, é um anticorpo monoclonal que bloqueia a ativação da miostatina, proteína que funciona como um regulador do crescimento muscular.
A aprovação norte-americana é para pessoas com atrofia muscular espinhal, uma doença genética que provoca fraqueza muscular progressiva. Portanto, o medicamento não foi aprovado para emagrecimento, para evitar perda muscular causada por canetas emagrecedoras ou para ser usado junto ao Mounjaro.
Essa distinção é importante porque uma manchete pode dar a impressão de que essa nova combinação já está disponível para quem deseja emagrecer. Ainda não está.
Por que o apitegromab foi estudado junto à tirzepatida?
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro e do Zepbound, pode promover uma perda expressiva de peso. Porém, o peso perdido não é composto apenas por gordura: também pode haver redução de massa magra.
Foi justamente essa preocupação que motivou o estudo EMBRAZE, publicado na revista Nature Medicine. Os pesquisadores avaliaram se bloquear a miostatina poderia ajudar a preservar massa magra durante o emagrecimento induzido pela tirzepatida.
O que o estudo encontrou?
O ensaio clínico foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Participaram 102 adultos com sobrepeso ou obesidade, acompanhados durante 24 semanas.
Metade recebeu tirzepatida associada ao apitegromab. A outra metade recebeu tirzepatida associada a placebo.
A perda total de peso foi semelhante entre os grupos. Entretanto, quem recebeu apitegromab perdeu, em média, 1,9 kg a menos de massa magra. Segundo os pesquisadores, isso representou uma preservação relativa de 54,9% em comparação ao placebo.
A frequência de eventos adversos foi semelhante: 76% no grupo do apitegromab e 71% no grupo placebo. Eventos adversos graves ocorreram em uma pessoa de cada grupo.
Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados dentro dos limites da pesquisa.
Massa magra é a mesma coisa que músculo?
Não exatamente.
Massa magra inclui músculos, água, órgãos, ossos e outros tecidos que não são gordura. Portanto, uma diferença observada em um exame de composição corporal não permite afirmar que todo o peso preservado correspondeu a músculo esquelético.
Também precisamos saber se essa preservação será acompanhada por benefícios de longo prazo em força, mobilidade, autonomia e saúde metabólica. Um estudo de 24 semanas, com 102 participantes, ainda não responde completamente a essas perguntas.
Isso muda o tratamento de quem usa Mounjaro hoje?
Ainda não.
O apitegromab não está aprovado para essa finalidade e não deve ser procurado ou utilizado por conta própria. São necessários estudos maiores e mais longos para confirmar eficácia, segurança e benefícios funcionais. No Brasil, qualquer nova indicação também dependeria de avaliação regulatória.
A parte mais útil da notícia, neste momento, é o alerta: emagrecer bem não é apenas diminuir o número da balança. É reduzir gordura cuidando da força, da funcionalidade e da massa muscular.
O que podemos fazer enquanto essa possibilidade ainda é estudada?
As estratégias disponíveis hoje continuam muito importantes:
- realizar exercícios de força adaptados à condição e ao nível de treinamento;
- consumir proteína e energia em quantidade compatível com as necessidades individuais;
- avisar à equipe quando a redução do apetite dificulta completar as refeições;
- acompanhar força, desempenho, sintomas e composição corporal;
- ajustar o tratamento com médico, nutricionista e profissional de educação física.
No artigo Como preservar massa muscular durante o emagrecimento?, explico com mais detalhes como alimentação e exercício podem trabalhar juntos nesse processo.
O exercício vai muito além do gasto de calorias
A musculação e outros exercícios resistidos oferecem ao corpo um motivo para preservar o tecido muscular. Além disso, o movimento participa da regulação da glicose, da capacidade funcional e da comunicação entre músculos e cérebro.
Se quiser entender melhor essa conexão, veja também Exercício físico e saúde mental: como seus músculos conversam com o cérebro.
Nenhum medicamento constrói sozinho uma rotina
Uma medicação pode diminuir a fome e facilitar parte do processo, mas ela não organiza compras, horários, refeições, treinos, sono e situações emocionais.
Por isso, o período de tratamento pode ser usado como uma oportunidade para construir habilidades que permaneçam: planejar refeições possíveis, reconhecer obstáculos, criar uma rotina de exercício e aprender a retomar depois de dias difíceis.
Esse é o tema do artigo Sei o que fazer, mas não consigo manter: como mudar hábitos?.
Conclusão
O estudo com apitegromab abre uma linha interessante de pesquisa para tornar o emagrecimento farmacológico mais cuidadoso com a composição corporal. Mas ele ainda não transforma o medicamento em uma opção aprovada para quem usa Mounjaro.
Até que estudos maiores tragam respostas mais sólidas, a proteção dos músculos continua dependendo de um cuidado integrado: tratamento médico bem indicado, alimentação adequada, exercícios de força e acompanhamento da evolução para além do peso.
Acompanhamento nutricional no uso de GLP-1
Organize alimentação, sintomas e preservação de massa muscular com uma estratégia individual, alinhada ao acompanhamento médico.
Conhecer o acompanhamentoReferências científicas
- 1.
Apitegromab for lean mass preservation during tirzepatide-induced weight loss: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 2 trial
Pratley RE et al. Nature Medicine, 2026.
Ver estudo - 2.
Scholar Rock Announces FDA Approval of ISEMBYLD (apitegromab-mstn) for Spinal Muscular Atrophy
Scholar Rock. Comunicado institucional, 2026.
Ver estudo - 3.
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