Exercício físico e saúde mental: como seus músculos conversam com o cérebro
A atividade física regular pode reduzir sintomas de ansiedade e depressão — e os músculos enviam sinais que conversam com o cérebro.

Fernando Villa Verde
Nutricionista • CRN-3 59345
Especializações:
- Nutrição Esportiva e Fisiologia do Exercício — USP
- Fitoterapia — Santa Casa de São Paulo
- Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness — PUC-Campinas e PUCPR

Em resumo
- A atividade física regular pode reduzir sintomas de ansiedade e depressão e favorecer sono e saúde cerebral.
- Pesquisas experimentais ligam o exercício a vias como irisina/FNDC5 e BDNF, envolvidas na plasticidade do cérebro.
- O movimento pode integrar o tratamento, junto ao acompanhamento psicológico e médico quando indicado.
Imagine terminar uma caminhada e perceber que o problema que ocupava sua cabeça continua ali, mas você se sente um pouco mais disposto para enfrentá-lo.
Essa sensação não acontece com todo mundo, nem em todos os treinos. Ainda assim, a relação entre movimento e saúde mental tem fundamento: a atividade física regular pode reduzir sintomas de ansiedade e depressão, melhorar o sono e favorecer a saúde cerebral. Organização Mundial da Saúde.
Parte dessa história envolve uma comunicação que muita gente desconhece: os músculos enviam sinais para outras partes do corpo, incluindo o cérebro.
Onde entram a irisina e o BDNF?
Entre as substâncias estudadas nessa comunicação está a irisina, relacionada a uma proteína chamada FNDC5.
Em pesquisas experimentais, o exercício ativou uma via envolvendo FNDC5 e o aumento de BDNF no hipocampo, uma região importante para a memória.
O nome parece complicado, mas a ideia é acessível: BDNF é uma proteína que participa da sobrevivência dos neurônios e da capacidade de suas conexões se adaptarem. Essa capacidade de adaptação é chamada de plasticidade e está envolvida na aprendizagem e na memória. Pesquisa publicada em Cell Metabolism.
Isso ajuda a entender por que os efeitos do exercício vão além do gasto de energia. Mas a irisina é uma peça dessa história, e não uma explicação única para todos os benefícios.
Exercício faz nascer novos neurônios?
Essa pergunta exige cuidado. Estudos em animais permitem investigar a formação de novos neurônios e os mecanismos envolvidos com muito mais detalhe do que conseguimos em pessoas.
Por isso, esses resultados não autorizam prometer que cada treino produzirá novos neurônios no cérebro humano. O que podemos apresentar é uma linha de pesquisa sobre como o exercício favorece processos ligados à plasticidade e à saúde neuronal. Estudo experimental sobre exercício e BDNF.
E os benefícios para a saúde mental?
Uma grande revisão de ensaios clínicos publicada no BMJ encontrou redução de sintomas depressivos com diferentes modalidades, incluindo caminhada ou corrida, exercícios de força e ioga. A confiança nas estimativas variou, e muitos estudos apresentaram limitações. Revisão sobre exercício e depressão.
Isso reforça o lugar do exercício no cuidado, mas não significa que alguém esteja deprimido porque “não se esforça para treinar”. Ansiedade e depressão podem dificultar justamente a disposição necessária para começar.
O movimento pode integrar o tratamento, junto ao acompanhamento psicológico e médico quando indicado.
Como levar isso para a sua rotina?
Você pode começar olhando para o que é possível hoje:
- Que atividade você consegue fazer com segurança?
- Existe um horário viável na sua semana?
- Ter companhia ou orientação ajudaria?
- Qual seria um primeiro passo pequeno o suficiente para caber na sua realidade?
A OMS destaca que alguma atividade é melhor do que nenhuma e que todo movimento conta. A progressão pode acontecer aos poucos. Orientações sobre atividade física.
Na consulta nutricional, podemos organizar sua alimentação para acompanhar essa rotina e trabalhar as dificuldades que atrapalham sua constância, em parceria com os profissionais envolvidos no seu cuidado.
Cuidar dos músculos também pode fazer parte do cuidado com a mente — mesmo quando a balança não muda.
Referências científicas
- 1.
- 2.
Exercise induces hippocampal BDNF through a PGC-1α/FNDC5 pathway
Wrann CD et al. Cell Metabolism, 2013.
Ver estudo - 3.
Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials
Noetel M et al. BMJ, 2024.
Ver estudo
Quer conversar sobre seu caso?
O acompanhamento é individual e considera sua rotina, objetivos e histórico de saúde.
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